SONHOS

O Poder dos Sonhos

Não seja empurrado pelos seus problemas. Seja impulsionado pelos seus sonhos!



sábado, 30 de junho de 2012

Caminhando-(Fernando Lapolli)


Se um problema fosse maior do que a possibilidade de ser resolvido, ele simplesmente não existiria. Para todo problema, existe sempre uma solução.
(Fernando Lapolli)

Noite de amor- Pablo Neruda




Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, 
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe". 
O vento da noite gira no céu e canta. 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Eu amei-a e por vezes ela também me amou. 
Em noites como esta tive-a em meus braços. 
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. 

Ela amou-me, por vezes eu também a amava. 
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. 
Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi. 

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. 
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. 
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la. 
A noite está estrelada e ela não está comigo. 

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. 
A minha alma não se contenta com havê-la perdido. 
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. 
O meu coração procura-a, ela não está comigo. 

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. 
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. 
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. 
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. 

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. 
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. 
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. 
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. 

Porque em noites como esta tive-a em meus braços, 
a minha alma não se contenta por havê-la perdido. 
Embora seja a última dor que ela me causa, 
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo. 

(Pablo Neruda) 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A perfeição - Clarice Lispesctor




O que me tranqüiliza 
é que tudo o que existe, 
existe com uma precisão absoluta. 

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete 
não transborda nem uma fração de milímetro 
além do tamanho de uma cabeça de alfinete. 

Tudo o que existe é de uma grande exatidão. 
Pena é que a maior parte do que existe 
com essa exatidão 
nos é tecnicamente invisível. 

O bom é que a verdade chega a nós 
como um sentido secreto das coisas. 

Nós terminamos adivinhando, confusos, 
a perfeição. 

Poema de Clarice Lispector arranjado pelo Padre Antonio Damázio 

in: A Descoberta do Mundo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984, p. 226 
 (Clarice Lispector) Nova Fronteira, 1984, p. 226 

O muro- Alberto de Oliveira





É um velho paredão, todo gretado, 
Roto e negro, a que o tempo uma oferenda 
Deixou num cacto em flor ensangüentado; 
E num pouco de musgo em cada fenda 

Serve há muito de encerro a uma vivenda; 
Protegê-la e guardá-la é seu cuidado; 
Talvez consigo essa missão compreenda, 
Sempre em seu posto, firme e alevantado. 

Horas mortas, a lua o véu desata, 
E em cheio brilha; a solidão de estrela 
Toda de um vago cintilar de prata. 

E o velho muro, alta a parede nua, 
Olha em redor, espreita a sombra, e vela, 
Entre os beijos e lágrimas da lua. 

(Alberto de Oliveira). 

A um ausente -Carlos Drummond de Andrade





Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste


(Carlos Drummond de Andrade)