SONHOS

O Poder dos Sonhos

Não seja empurrado pelos seus problemas. Seja impulsionado pelos seus sonhos!



sábado, 14 de setembro de 2013

Os dois horizontes - (Machado de Assis)



Os dois horizontes

Dois horizontes fecham nossa vida:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro, —
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais.
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou, 
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente, 
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? — Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? — Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

Dois horizontes fecham nossa vida.

(Machado de Assis)

Renascer - Saryta


Renasço.
Eis de novo
a vida fluindo,
o sangue agitado,
o corpo fremente,
o coração cantando.
Sinto cada poro,
cada vibrar,
cada desejo.
Sinto-me inteira,
e renasce o íntimo,
renasce a alma,
renasce a emoção,
volto a viver.
Não tenho medo,
não há lugar
para nada além de você,
desse renascer gostoso e potente
dentro de mim.
Que me importa a mim,
- por quanto tempo -
um dia,
um mês,
um ano,
uma existência?
Vale viver,
vale saber você,
saber de nós,
saber de mim.
Não quero pensar,
nem sofrer ,
tampouco chorar.
Quero estar com você,
sentí-lo na carne,
na alma,
na vida novamente a vibrar,
a cantar, a sorrir.
Quero usufruir do pouco
que teremos
sorvendo sôfrega cada instante.
Renasço em você,
por você
e para você.

(Saryta)

sábado, 7 de setembro de 2013

Mistério - Florbela Espanca


Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
 Dizendo coisas que ninguém entende!
 Da tua cantilena se desprende
 Um sonho de magia e de pecados.

 Dos teus pálidos dedos delicados
 Uma alada canção palpita e ascende,
 Frases que a nossa boca não aprende,
 Murmúrios por caminhos desolados.

 Pelo meu rosto branco, sempre frio,
 Fazes passar o lúgubre arrepio
 Das sensações estranhas, dolorosas…

 Talvez um dia entenda o teu mistério…
 Quando, inerte, na paz do cemitério,
 O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca